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quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

E Tu?


Conta-se que uma vez 5 portugueses foram para a América, em busca de outro. Esperavam encontrar ouro e deitaram rapidamente mãos ao trabalho. E trabalharam, trabalharam duro. Trabalharam anos e anos duramente e sem perder a ilusão. Lavaram montanhas de lama com a água fria dum rio negro, e nunca apanharam ouro algum.

Não sei se sabes mas pensaram em desistir.

Mas logo pensaram: — como é que chegamos á terrinha pobretes, mal vestidos, velhos e desdentados? E por lá foram ficando. Continuaram a lavar terra, a remover cascalho. E nada. Nada. Numa manhã fria ao descer em direcção ao rio um deles viu um piscar qualquer. Não ligou muito, mas depois foi ver: TINHA ENCONTRADO OURO!

Atirou um bocado de água, depois mais um bocado e mais um bocado. Era uma pepita de ouro bem grande, bem grande mesmo! Deu um berro e chamou os outros quatro e começaram a desenterrar. Mas a pepita era bem grande mesmo. Desenterraram, desenterraram e não a desenterraram toda. Por isso, porque era sábado, decidiram cobri-la toda com pedras, lamas e galhos, limo. Até um cão morto lá puseram.

Decidiram que tomariam banho, que iriam à cidade e por que ao outro dia era Domingo. Participariam na Missa. Mas não diriam nada a ninguém. Depois teriam uma semana inteira para tratar do assunto.

Como compreendes, o importante é que nenhum deles dissesse nada a ninguém.

Por isso foram à missa juntos, depois almoçaram juntos, durante a tarde foram juntos dançar com as raparigas e beberam uns copos. A noite chegou e foram dormir, de manhã vestiram as roupas de trabalho e foram para o belo trabalho que tinham entre mãos. Mas iam a caminho do lugar da pepita quando se aperceberam que algumas pessoas os seguiam. Algumas não, muitas pessoas seguiam em filinha cada um dos garimpeiros sortudos. Começaram a desconfiar: será que foi este, será que foi aquele que disse? Ou foi o outro que se meteu nos copos? Lá se perdeu tudo porque o mais jarreta deu com a língua nos dentes… Enfim, desconfiaram uns dos outros.

Até que um, mais afoito, perguntou aos ‘perseguidores’:
— Que fazem aqui? Quem deu com a língua nos dentes?
Ao que lhe responderam:
— Calma amigo! Ninguém deu coma língua nos dentes!
Vocês é que andam tão contentes que se vê logo que encontraram uma mina de ouro!

domingo, 13 de outubro de 2013

Faz parte do caminho...


Era uma vez uma serpente amargurada, que resolveu perseguir um pirilampo que só vivia para brilhar.

O pirilampo, tremendo de medo, tentava fugir o mais rápido que podia. Já a serpente, com sua expressão feroz, vivia somente para o perseguir e jamais pensava em desistir.

Fugiu um dia, fugiu outro e ao terceiro, já sem forças, o pirilampo finalmente parou e disse à serpente:
- Será que te posso fazer três perguntas?
- Não costumo permitir isso, mas já que te vou comer, deixo que o faças.
- Pertenço à tua cadeia alimentar?
- Não.
- Fiz-te algum mal?
- Não.
- Então porque é que me queres comer?
- PORQUE NÃO SUPORTO VER-TE BRILHAR!...


Tal como nesta história, por vezes deparamo-nos com pessoas que agem como serpentes e tentam prejudicar-nos a todo custo. Faz parte da vida e pode acontecer a qualquer um. Mas jamais permitam que uma serpente vos impeça de brilhar. Sejam antes felizes. Sendo a felicidade contagiosa, quem sabe se não conseguem transformar a serpente num radioso pirilampo.

terça-feira, 19 de março de 2013

O peregrino e o homem sério

Certa vez, durante longo percurso, caminhou ao lado de um peregrino um homem sério, austero, de rosto sisudo e grave. Enquanto o peregrino tornava-se mais leve a cada passo, deixando para trás o que até então havia sido, aquele homem tinha um caminhar moroso, ia revolvendo pensamentos e assim parecia que mais pesado ia ficando o que trazia consigo. Em silêncio, o peregrino abria-se para que a sua entrega e a alegria que dela brotava pudessem ajudar aquele que, por ter arraigados conceitos mentais, não permitia que a pureza do seu próprio estado espiritual emergisse. E, pouco a pouco, uma leveza foi-se introduzindo na expressão daquele homem.
Quando um ser manifesta a alegria da comunhão com energias sutis, suas condições de auxiliar os que ainda não reconheceram a necessidade de voltar-se para a luz são maiores do que se guardasse para si o que a vida interior lhe concede. É o ardor do fogo que faz elevar o brilho da chama. A alegria sadia, serena, plena de paz que emerge do toque do espírito não deve ser ocultada. A humanidade receberá maior bem por meio do exemplo da união com núcleos internos do que da rigidez imposta por ideias acerca do que deva ser o comportamento de um homem evoluído. A sobriedade é necessária e sem ela a clareza não chega à mente, mas ela e a alegria não são incompatíveis – ambas, se verdadeiras, harmonizam-se na revelação de uma vida entregue ao Supremo.
[Trigueirinho] 

terça-feira, 5 de março de 2013

Mas que perda de tempo!



Conta-se que na Pérsia antiga vivia um rei chamado Zemir. Coroado muito jovem, julgou-se na obrigação de se tornar sábio. Então, reuniu em torno de si numerosos sábios vindos de todos os Países e pediu-lhes que editassem para ele a História da Humanidade. Assim, todos os eruditos se atiraram de coração e alma a este estudo. 
Vinte anos escoaram-se na preparação desta edição. Finalmente, dirigiram-se ao palácio, carregados de quinhentos volumes acomodados no dorso de doze camelos. O rei Zemir havia, então, passado dos quarenta anos e já começava a sentir as maleitas da idade. 
- Já estou velho - disse ele. - Não terei tempo de ler tudo isso antes da minha morte. Nessas condições, por favor, preparai-me uma edição resumida. 
Por mais vinte anos trabalharam os sábios na feitura dos livros e voltaram ao palácio com três camelos apenas. Mas o rei envelhecera muito. Com quase sessenta anos, sentia-se enfraquecido. 
- Não me é possível ler todos esses livros. Por favor, fazei-me deles uma versão ainda mais sucinta. 
Os eruditos labutaram mais dez anos e depois voltaram com um elefante carregado das suas obras. Mas a essa altura, com mais de setenta anos, quase cego, o rei não podia mesmo ler. Pediu, então, uma edição ainda mais abreviada. 
Ora acontece que os eruditos também tinham envelhecido. Concentraram-se por mais cinco anos e, momentos antes da morte do monarca, voltaram com um volume só. 
- Morrerei, portanto, sem nada conhecer da História do Homem - disse ele, amargurado. 
À sua cabeceira, o mais idoso dos eruditos respondeu: 
- Vou explicar-vos em três palavras a história do Homem: Ele nasce, sofre e, finalmente, morre. 
E nesse preciso instante o rei morreu. 

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Uma grande viagem



Era uma vez um rei que estava quase a morrer. Mandou então chamar o bobo da corte que mais o fazia rir com as suas piadas. Mas nem o melhor humor lhe arrancou um sorriso.
— Porque estais tão triste, Majestade?, perguntou.
— Porque vou fazer uma grande viagem, respondeu o rei.
— Mas como ides fazer um longa viagem se não estais preparado? Onde estão as vossas malas? E as vossas roupas? Onde estão os cavalos?
— É esse o problema, respondeu o rei. Descuidei-me! Estive sempre tão ocupado com outras coisas e agora tenho pouco tempo para me preparar.
— Tomai, pois, a minha gorra, respondeu-lhe o bobo, ficai com o meu apito e as minhas campainhas, pois sois mais tonto que eu. Ides fazer a viagem mais longa da vossa vida e a única coisa que ocorre é chamar-me!

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Protegida dos ventos



Dois amigos caminhavam lado a lado numa extensa praia... falavam sobre várias coisas e, a certa altura, o mais novo parou e perguntou ao mais velho como se faz para manter a amizade com alguém.
O mais velho olhou para o mais novo e disse-lhe:
- Pega num pouco de areia com a mão e fecha-a com força...
O mais novo assim fez e reparou que quanta mais força fazia, mais depressa a areia ia escapando por entre os seus dedos.
- Assim a areia vai fugindo!
- Eu sei, agora abre completamente a mão...
O mais novo assim fez e o vento levou o restava da areia. O amigo mais velho, sempre a sorrir, disse-lhe de novo:
-Agora pega de novo num punhado de areia e mantém a mão meia
aberta, como se fosse uma colher...
O amigo mais novo experimentou e reparou que a areia se mantinha na sua mão e estava protegida dos ventos.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

Uma árvore...


Uma árvore com vários anos de existência, vivia numa grande planície. Ao seu redor floriam pequenas flores. Uma das flores perguntou um dia à grande árvore:

- Olha lá... sob que luz trabalham os pastores em seus pastos de planícies verdejantes?
- Sob que luz? Que pergunta… – Retorquiu-lhe a grande árvore.
- Sim. Sob que luz? Não poderão trabalhar eternamente na contemplação do sol, das estrelas,
do luar, do fogo?
- Trabalham sob a luz do astro Sol. – Respondeu-lhe a grande árvore?
- E quando a luz do sol deixar de existir na terra? – Perguntou novamente a flor.
-Talvez nesse instante se apercebam da sua ausência e tenham que trabalhar à luz do luar, da estrelas, do fogo que arde, da chama que alumia a noite…
A flor como era muito curiosa, estava preocupada pela não comparência dos seus amigos pastores se caso não existisse o sol, o luar, o fogo…algo que lhes pudesse iluminar o caminho.
Não queria deixar de poder ver as ovelhas que alegremente nos campos corriam, os pastores que seguiam…Se não existisse luz para os iluminar, que seria de suas vidas. Permaneceriam no vazio, na eterna noite, sem luz, nem guia?
Estando preocupada voltou a questionar a grande árvore:
- E quando nenhuma luz existir?
-Tu és sempre assim. Que perguntas fazes tu pequena flor! Não sei o que respondo é o mais certo. O que penso é o que te digo… Penso que quando o sol, a lua, o fogo e tudo mais que possa ser luz no caminho dos pastores e das suas ovelhas se extinguir, os próprios, terão descoberto a luz que emana de si mesmos. Poderão caminhar com a sua própria luz, a luz da interioridade armazenada. Com a luz que conseguiram armazenar no seu interior enquanto pastoreavam as suas ovelhas, durante anos. Sabes pequena flor, no jardim florido, nos prados verdejantes que a meus pés te colocas, a alegria brotará sempre de cada pastor, de cada ovelha, deles emergem experiências de vidas únicas. Olhares contemplativos que vivem em plenitude! Plenitude que liberta, enche e não esvazia.

[V.P.]

domingo, 3 de fevereiro de 2013

Não te percas no teu caminho!


Um jardineiro, todas as manhãs tratava do seu jardim. O seu jardim era o mais belo dos jardins. Um jardim provido de uma extraordinária beleza, nele se refugiava e com ele conversava e crescia em cada novo dia. Guardava e (re)encontrava alegria para viver, um olhar especial o inundava de graça ao saber-se nele... Durante todo o ano, o visitava e trazia presente no seu pensamento. Nenhuma estação do ano o derrubava, nem mesmo o rigoroso e gélido Inverno. Neste jardim as distintas flores cresciam, os pássaros e todos os animais do campo cursavam cada recanto, conheciam o seu jardineiro e ele entregava-se a eles enraizando-se. Em cada lugar vazio, brotava a vida! Certo Inverno, o jardineiro deixou de vistoriar, percorrer o seu jardim, descuidou o amor que lhe tinha, hospedou-se em outros que não ele… E o jardim? O especial jardim? O seu jardim? Ele não cuidou dele. Ninguém mais cuidou dele. As flores murcharam, não eram regadas, o verde perdera a cor, a relva não era aparada, os pássaros deixaram de chilrear, não apareciam, não alimentava os animais, não conversava com as flores…nada, nada, nada… Nada nem ninguém tinha vida? O que teria acontecido ao jardineiro? Acabara de trabalhar a terra, estaria concluído o seu trabalho? Deixara de amar? Deixara de ver nas criaturas meios para o auxiliarem a conseguir o fim. Como poderia ficar indiferente? O jardineiro, deixara de cuidar do seu jardim, perdera o encanto... Ao redor do seu jardim via que o mais belo dos jardins de outrora, o seu, tinha perdido a beleza. Quem o despertaria para a realidade? Ao redor, os outros jardins cresciam com um especial brilho, o brilho que cada um dos jardineiros depositara... mas, o seu, o especial jardim de que o conto conta, o mais belo dos jardins morria, por não encontrar a vida! O jardineiro desfalecia ao ver como tinha deixado desfalecer o seu jardim! A ausência do seu «prestador de cuidados», o jardineiro, a ausência das suas sinceras palavras que germinavam da humildade do seu coração, originara a morte do jardim… As lágrimas silenciosas que corriam em seu olhar eram a linguagem presente de tempos ausentes, eram a linguagem do seu coração que sangrava, por ter originado a morte do seu jardim. O jardineiro, não cuidará do seu jardim e o seu jardim morrera!

És tu, este jardineiro?

[V.P]

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

No caminho: a alegria

 
Em certa ocasião, um jovem de uma aldeia teve que viajar até à capital. Enquanto ia em grupo, e sem ele se dar conta, alguém tirou-lhe o mais valioso que tinha: um relógio que seu pai lhe havia oferecido com muito sacrifício antes de morrer. Quando se deu conta, o seu coração encheu-se de uma grande amargura e sentiu um profundo ódio pelo desconhecido que lhe tinha tirado o seu valioso tesouro.
A partir desse momento, os seus pensamentos centraram-se no anónimo ladrão. Pensava nele dia e noite, odiava-o com todo o seu coração, e o seu rancor crescia cada vez que tinha de ver a hora no outro relógio mais pequeno que agora usava. Havia noites em
que não dormia de raiva e de impotência. Tornou-se irritadiço e iracundo com a sua própria família. Até que um dia, angustiado por tanto ressentimento, fez esta oração: «Senhor, já não posso continuar assim. Por isso quero perdoar a esse ladrão que levou o meu relógio. Mais ainda: quero oferecer-lhe o meu relógio. De tal modo que, quando esse ladrão morrer, Tu não o julgues por este roubo, porque não houve roubo nenhum. Eu já lhe ofereci o meu relógio».
A partir desse dia, o jovem foi feliz. Recuperou a alegria que durante meses tinha perdido, porque não voltou a trazer à sua memória aquele facto torturante. E desde então pôde viver em paz.
[Autor anónimo]

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

A arvore, a lua e a noite.


E por Tudo vos digo…

A arvore, a lua e a noite.

Esta árvore como tantas outras árvores que se encontram na aparência terrestre, conhece uma amiga chamada lua, ambas vivem num hasteado cenário da noite…Neste cenário bucólico da noite, tudo lhes é particularizado, calmo, sereno... Convivem entre os sons nocturnos que convidam a espelhar sobre a claridade da lua a vida implementada na humildade de serem elas mesmas. A árvore envolve-se com esta lua, não imaginando o quanto é apreciada e acarinhada. A noite transforma-se em confidente salientando a familiaridade conquistada. A árvore sujeita ao olhar que reflecte o peso da jornada anseia pela lua, pois nela vê reflectida a sua transparente reprodução. Sempre que o sol pensa em dormir, em se ausentar para descansar, é convidada a entrar em cena a noite. Faz-se presente, torna-se íntima. Na noite, permanece entre frestas de silêncio, a solidão sonora do vento do deserto fundo, implantado pela tranquilidade de uma realidade que cala no mais profundo centro! Harmoniosamente o Tudo conquista espaço e debita nesta árvore a força. Interiorizando a certeza de amanhãs que se sucedem sempre pelo culminar de um dia, esta árvore sabe que o encontro é realizável, autêntico e apesar do tudo, tranquilizante. A espera por este encontro enaltece a capacidade da delonga… O que a árvore vive e compartilha durante o dia é circunspecto na noite. Não a conhecendo verdadeiramente uns e ajuizando outros a certeza do seu trajecto, a árvore sabe que será compreendida na noite que a espera… compreendendo-a. Na noite está o surgimento, o âmago de uma renovada vida. Esta noite traz consigo a presente calma e esperada placidez. A árvore regressa em cada dia com ânsias deste encontro e nesta verdade se quer (re)conhecer, defrontando as forças ainda não conquistadas da certeza em que crê.

Onde nos (re)vemos? Árvore, lua ou na noite?!
 
[V.P.]

sábado, 5 de janeiro de 2013

O Quarto Rei Mago


Aníbal também viu a estrela. Como Belchior, Gaspar e Baltazar, soube imediatamente que alguma coisa importante se passava. Procurou nos livros e descobriu que aquela estrela anunciava o nascimento do Salvador. Então, Aníbal pegou
nas três pérolas mais belas do seu tesouro para as levar ao Menino. E pôs-se a caminho.
Há muito que caminha, de olhos postos no céu, a fim de não perder de vista a estrela. Eis senão quando tropeça em qualquer coisa. No meio da estrada encontra-se um homem estendido.
— Que fazes aqui? — pergunta ele, cheio de dó.
— Estou à espera da morte — responde o homem com uma voz débil. — Estou muito doente e sem dinheiro para me tratar.
Aníbal não hesita um segundo. Ergue o doente e leva-o à cidade mais próxima. Ali, deixa-o aos cuidados de uma mulher idosa a quem entrega a primeira pérola.
— Esta pérola é para comprares tudo o que for necessário para tratares este homem — diz-lhe ele, antes de voltar a pôr-se de novo a caminho.
Aníbal continua a andar, sempre de olhos fitos no céu. De repente, ouve gritos. Um homem bate violentamente numa mulher.
— Que te fez ela? — pergunta ele com pena.
— É uma escrava! Não vale nada! — responde o homem, com ares de mau. — Não sabe trabalhar!
Sem hesitar, Aníbal tira da sua bolsa uma segunda pérola.
— Toma — diz ele, entregando-a ao homem. — É para comprar a liberdade desta mulher. Deixa-a ir embora.
O homem pega na pérola e liberta a rapariga.
— Obrigada! — diz ela a Aníbal, antes de fugir dali.
O Rei Mago prossegue o seu caminho, sempre de olhos no céu.
Já perto de Belém, eis que uma viúva banhada em lágrimas vem a correr ter com ele.
— O que aconteceu? — pergunta-lhe, com doçura.
— Os soldados levaram o meu filho! — diz ela a soluçar. — Roubou farinha para me dar de comer! Ninguém mais tenho no mundo!
Também desta vez Aníbal não hesita um segundo. Segue a viúva até à prisão. Dá aos soldados a sua última pérola para que libertem o preso. E assim a mãe recupera o filho. Aníbal, esse, apressa o passo porque já está atrasado.
Quando chega junto do presépio, os três Reis Magos já tinham entregue os presentes ao recém-nascido e já se tinham ido embora. Aníbal só tem as desculpas para oferecer… por ter chegado de mãos vazias!
No entanto, o Menino Jesus recebe-o com um grande sorriso e de braços estendidos.
Não é a visita deste Mago tão generoso o mais belo de todos os presentes?

[Christine Pedotti]

Nasci para servir os outros

 
Um enorme cepo de oliveira ardia lentamente ao canto da lareira. Entretanto, recordava o seu passado. «No princípio, era uma oliveira como as outras. Além de dar azeitona, os pássaros abrigavam-se nos meus ramos. Passaram os anos e comecei a sentir dificuldades: a seiva já não atingia os ramos altos, que começaram a secar. Tornei-me numa velha oliveira que já não dava azeitona. Sequei pouco a pouco e tornei-me num velho cepo. Vieram os lenhadores arrancar-me e vim parar a esta lareira. Pegaram-me fogo e eu dou-lhes o calor de que necessitam. Á minha volta, nesta noite fria, os homens esfregam as mãos, as mulheres falam e as crianças dormitam». E o último pensamento do cepo foi este: «Nasci para servir os outros. Fiz o melhor que pude no desempenho da missão que me coube. Por isso, morro tranquilo e feliz. No punhado de cinza a eu me reduzo fica a alegria de me ter dado completamente aos outros até ao fim».

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Ano Novo


 
Na noite de 31 de Dezembro Tristão acorda em sobressalto. Sonhava com um carrossel de cores quando um estrondo lhe atravessou a cabeça fazendo-o erguer da cama grande.
Tudo naquele quarto lhe parece grande e estrangeiro, paredes, portas, armários, mas o que sente não é exactamente medo. Mais uma saudade das cores do sonho. Ali, agora, tudo escuro e enevoado, como nos sonhos falsos dos filmes. Ele vira-se, desce da cama. Um miúdo de três anos e meio com uma cara clara e grandes, espantosos, olhos pretos.
No corredor, quadros com imagens de caça. Tristão pensa como são feios os rostos sem sobrancelhas dos cavaleiros. Para não ver mais nenhum, olha para baixo enquanto anda. Os pés descalços na madeira fria. Quando encontra uma porta, empurra-a.
A meio da sala, dá conta de ir a chorar baixinho. Esperava encontrar alguém depois da porta, mas não há ninguém. Nem a mãe, nem o pai. E, à medida que vai avançando para a outra porta, adensa-se o medo estremunhado no coração do miúdo. Por um lado, o choro ecoando naquele espaço. Por outro, o terror das coisas, tão quietas e imprecisas. A cadeira fora do lugar, o cinzeiro sujo. Tristão sente que, agora acordado, está dentro de um lugar muito mais vago e nevoento do que antes, quando sonhava. Um lugar vago e escuro e nevoento que é tal e qual um pesadelo.
Outra porta: luz, música. Homens com laços debaixo do queixo, mulheres com pescoços nus. Mostram-se espantados e alegres ao verem-no, mas são maus actores. E a luz é violenta, e alguém dá uma gargalhada grossa, e há o estrondo de bombas lá fora. Tristão não chora mais. Está em pânico, olhos perdidos. Vai atirar-se para o chão e enrolar-se sobre si próprio, fechado a qualquer palavra ou gesto, repetindo para dentro "não, não".
Mas o mordomo da empresa de organização de eventos vale o seu peso em ouro. Pousa a garrafa de champanhe, pega no miúdo. Sorri aos convidados e sai com ele para a janela, para ver o fogo-de-artifício. "Estás a ver? É isto o barulho", diz-lhe.
E Tristão serena porque pensa que aquelas cores explodindo na noite são tão parecidas com as do sonho, tão parecidas, que afinal talvez seja aquilo a "realidade".
[Jacinto Lucas Pires]

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

O Natal daquele ano!


O Francisco frequentava o terceiro ano de escolaridade com muito bom aproveitamento. Era um miúdo admirável! Já vivera razoavelmente mas, actualmente, sofria as consequências da quase indigência do pai por, no início daquele ano, ter perdido o emprego. Era um bom trabalhador, mas a oficina fechara.
Andava o miudinho muito triste e amargurado porque a fome, o frio e a tristeza eram o pão-nosso de cada dia naquela casa.
Como habitualmente, ao aproximarem-se as férias do Natal, a professora mandou que os alunos fizessem uma redacção sobre essa quadra festiva.
O Francisco debruça-se sobre o papel e, numa letra mais adulta que infantil, intitula a sua composição de APELO e escreve:
«Menino Jesus: não acredito no que tenho ouvido dizer a teu respeito, ou seja, que só dás a quem já tem, e nada dás a quem nada tem! Explico-te porquê: eu sei que são os pais a darem essas prendas e não tu, que tens mais que fazer; se fosses tu, de certeza que davas a todos e, se calhar, em primeiro lugar aos mais pobres.»
Sim, eu tenho certeza que davas a todos e, se calhar, em primeiro lugar aos mais pobres. Sim, eu tenho a certeza que seria assim, pois nunca te esqueces que também nasceste pobre e pobre morreste.
«Não venho pedir nada para mim. Quero lembrar-me que o meu pai está há um ano sem trabalho e precisa de ganhar dinheiro para nos sustentar. Por isso, não te esqueças de lhe arranjar um emprego. Eu sei que Natal quer dizer nascimento e, olha, nós também nascemos e, com certeza, não foi para que morrêssemos já, sem dar testemunho sobre a terra. Se assim fosse, como é que poderíamos dar os parabéns pelo teu aniversário?! Já agora podes ficar a saber que eu nasci no mesmo dia: nasci no Natal»
Pouco antes de as férias começarem, a professora chamou o Francisco e disse-lhe que tinha arranjado trabalho para o seu pai e, que já poderia começar a trabalhar no princípio de Janeiro do próximo ano. Foi tal a alegria dele que chorou copiosamente e, então, passou a andar tão contente, que os pais não sabiam que dizer. No entanto ele não disse porque é que andava assim.
Na véspera de Natal todos se deitaram cedo, pois a consoada consistiria em sopa e pão, por o dono da mercearia, atendendo ao dia que era, ter condescendido em acrescentar ao rol do livro da dívidas.
O Francisco não adormeceu logo. Depois de ter verificado que toda a gente estava a dormir, foi colocar o seu sapatinho à porta do quarto dos pais, com um bilhete dentro.
No dia de Natal, a mãe, que era sempre a primeira a levantar-se, ao sair do quarto tropeçou no sapato do filho. Baixou-se, pegou nele, e leu o bilhete: "Pai, a partir de Janeiro vai ter trabalho. Foi a minha professora que lho arranjou, por causa da minha redacção ao Menino Jesus. É a nossa prenda de Natal".
Com as lágrimas nos olhos, de contentamento já se vê, aquele casal entrou, pé ante pé, no quarto do filho. Ao vê-lo profundamente adormecido e a sorrir, ambos disseram: eis aqui o nosso Menino Jesus!
[Joaquim dos Santos Marinho]

sábado, 22 de dezembro de 2012

Conto de Natal


Era uma vez um pobre sapateiro que vivia numa cabana, na encruzilhada de um caminho, perto de um pequeno e humilde povoado. Como era um homem bom e queria ajudar os viajantes, que à noite por ali passavam, deixava na janela da sua casa, uma vela acesa todas as noites, de modo a guiá-los. E apesar da doença e a fome, nunca deixou de acender a sua vela. Veio então uma grande guerra, e todos os jovens partiram, deixando a cidade ainda mais pobre e triste. As pessoas do povoado ao verem a persistência daquele pobre sapateiro, que continuava a viver a sua vida cheio de esperança e bondade, decidiram imitá-lo e, naquela noite, que era a véspera de Natal, todos acederam uma vela em suas casas, iluminando todo o povoado. À meia-noite, os sinos da igreja começaram a tocar, anunciando a boa notícia: a guerra tinha acabado e os jovens regressavam às suas casas! 
Todos gritaram: “É um milagre! É o milagre das velas!”. A partir daquele dia, acender uma vela tornou-se tradição em quase todos os povos, na véspera de Natal.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Aprender com os erros



O mestre, conduz o seu aprendiz pela floresta. Embora mais velho, caminha com igualdade, enquanto o seu aprendiz escorrega e cai a todo instante.
O aprendiz blasfema, levanta-se e cospe no chão e continua a acompanhar o seu mestre.
Depois de uma longa caminhada, chegaram a um lugar sagrado. Sem parar, o mestre dá meia volta e começa a viagem de volta.
- Não me ensinou nada hoje- diz o aprendiz, levando mais um tombo.
-Ensinei sim, mas parece que não aprendes – respondeu o mestre – estou a tentar ensinar como se lida com os erros da vida.
-E como lidar com eles?
- Como deveria lidar com seus tombos- respondeu o mestre- Em vez de ficar amaldiçoando o lugar onde cai, devia procurar aquilo que o fez escorregar.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Os quatro Anjos do Advento


Há muito tempo atrás os homens viviam no mundo, mas não sabiam construir casas, nem plantar e cuidar da terra. Viviam em cavernas onde era escuro, não tinham luz Deus, então, chamou os Anjos para que trouxessem luz aos quatro cantos do mundo e avisassem os homens que o Filho de Deus viria. O primeiro Anjo tinha as asas azuis. Foi iluminar as cavernas e as grutas com um raio de luz que o sol lhe deu. Foi esse raio de luz de sol que ajudou os anões a fazerem as pedras coloridas. Esse Anjo trouxe a chuva e ela lavou as pedras, encheu os lagos, fez os rios correrem mais depressa. O segundo Anjo tinha as asas verdes. Saiu do céu bem cedinho, mas, como voava devagar, chegou na terra ao entardecer. O raio de luz que esse Anjo trouxe deu cor e perfume às plantas. Ele também ensinou os homens a plantar e a deixar a terra bem fofinha para receber a semente. O terceiro Anjo tinha as asas amarelas. Ele foi até perto do sol e o sol lhe deu um raio de sua luz para que ele trouxesse até a terra. Quando ele estava chegando, os animais viram aquela luz e ficaram admirados. O Anjo então explicou que iria nascer uma criança muito especial e que todos deveriam se preparar para recebê-La. Os pássaros fizeram músicas muito bonitas, as borboletas coloriram suas asas, os animais de pelo falaram uns com os outros sobre o acontecimento e o vento espalhou a notícia por todos os cantos. O quarto Anjo tinha as asas vermelhas. Ele queria tanto ajudar os homens que foi logo falar com Deus, não esperou ser chamado. Deus tirou uma luz de seu trono e disse ao Anjo vermelho que colocasse essa luz no coração de cada homem, de cada mulher e de cada criança. Porque já estava bem perto o dia do nascimento de Jesus. É por isso que até hoje acendemos 4 velas na coroa de Advento, para lembrar os quatro Anjos que nos avisaram da chegada do filho de Deus.
[Lenda Russa]

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Pequena história com sentido



Quando Gagarin fez a sua viagem espacial na órbita da Terra, a certa altura da viagem começou a ouvir um barulho parecido o ruído de algo a bater num cano metálico. O barulho não era muito forte mas era ritmado e constante. Passada uma hora já incomodava. Ao fim de umas horas tinha-se tornado insuportável e a perspectiva de passar mais 21 dias naquela cápsula minúscula a ouvir aquele ruído era de endoidecer. Então, pensou: 'Em vez de odiar o ruído vou apaixonar-me por ele'. Imaginou aquele som como fazendo parte duma sinfonia e passou o resto da viagem encantado com a música que ouvia.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Os dois cântaros



Um rapaz vivia entre os monges do deserto sentia-se pouco inteligente e incapaz de guardar os ensinamentos recebidos. Entristecido, procurou um velho sábio e disse-lhe: 
- Apesar dos esforços constantes que faço, não chego a conservar na memória durante muito tempo, as instruções que recebo. Vão, também, para o esquecimento os trechos mais belos que leio, diariamente, no evangelho...
O sábio que o escutava com paciência e bondade pegou dois cântaros e disse-lhe:
-rapaz, toma um daqueles cântaros, coloca um pouco d'água, e depois lava-o cuidadosamente. Enxuga-o com o teu próprio hábito e devolve-o ao lugar onde estava." 
Obediente, o rapaz fez exactamente o que lhe determinou o sábio. 
Concluída a tarefa, o ancião perguntou-lhe qual dos dois cântaros estava mais limpo e claro. 
O rapaz tomou nas mãos o cântaro que acabara de secar e respondeu: "este, por certo, está mais limpo. Lavei-o com muito cuidado." - disse sorrindo. 
O sábio, então, retorquiu: "repara bem" - apontando para o cântaro limpo, "ele difere muito daquele outro que não foi lavado por ti e continua sujo e empoeirado. 
Porém, embora inegavelmente limpo, este cântaro não retém mais vestígio algum da água que o purificou.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Cegueira no caminho



Certo dia, estava uma senhora idosa, num canto da rua, confusa e hesitante na tentativa de fazer a travessia diante de um tráfego intenso. Temerosa, ela não conseguia sair do lugar.
Finalmente apareceu um cavalheiro que, tocando-a, perguntou se poderia atravessar a rua com ela.
Alegre e muito agradecida, a senhora tomou seu braço e juntos partiram em direcção ao lado oposto.
Foi então que ela começou a ficar mais apavorada ao ver que o cavalheiro ziguezagueava pelo meio da rua enquanto buzinas soavam e freios eram accionados com motoristas dizendo palavras ofensivas.
Quando finalmente chegaram ao outro lado, ela, furiosa, disse-lhe:
- "Quase nos matou. Senti que caminhava como se fosse cego!"
- "Mas eu sou. Foi por isso que perguntei se poderia atravessar consigo."