sábado, 9 de fevereiro de 2013

O Teu querer...



«O que Tu queres que eu peça, peço; o que Tu não queres, não quero, 
nem mesmo o posso, nem sequer me passa pelo pensamento querer»
 [São João da Cruz, Chama, 1, 36]

Que labirinto és Tu?



...que labirinto és Tu
no qual me equivoco
inquietando?

procurando-me em Ti
por momentos me perco.

Sem Te encontrar em mim.
apoiando-me
em Ti
atravesso
cúmplices silêncios.

...regresso
às paredes de uma casa
conhecida.
 regresso
onde me sento,
sinto,
permaneço
e não descanso.

...interpelo-me
nos desafios
lançados de outrora.

...prostrando-me
em desafios inconfessáveis
revejo
labirintos vividos
e não decifrados!
continuamente…

...procurando-me em Ti
por momentos me perco
sem Te encontrar em mim.

...que labirinto és Tu
nesta estrada
após ter percorrido tantas outras?

[V.P]

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Neste caminho...


Restolho




«Geme o restolho, triste e solitário
a embalar a noite escura e fria
e a perder-se no olhar da ventania
que canta ao tom do velho campanário

Geme o restolho, preso de saudade
esquecido, enlouquecido, dominado
escondido entre as sombras do montado
sem forças e sem cor e sem vontade

Geme o restolho, a transpirar de chuva
nos campos que a ceifeira mutilou
dormindo em velhos sonhos que sonhou
na alma a mágoa enorme, intensa, aguda

Mas é preciso morrer e nascer de novo
semear no pó e voltar a colher
há que ser trigo, depois ser restolho
há que penar para aprender a viver
e a vida não é existir sem mais nada
a vida não é dia sim, dia não
é feita em cada entrega alucinada
prá receber daquilo que aumenta o coração».

[Restolho – Mafalda Veiga]

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Neste caminho: A Penumbra!

Luz para o caminho!

O único caminho


No tempo em que o Espírito habitava a terra
E em que os homens sentiam na carne a beleza da arte
Eu ainda não tinha aparecido.
Naquele tempo as pombas brincavam com as crianças
E os homens morriam na guerra cobertos de sangue.
Naquele tempo as mulheres davam de dia o trabalho da palha e da lã
E davam de noite, ao homem cansado, a volúpia amorosa do corpo.

Eu ainda não tinha aparecido.

No tempo que vinham mudando os seres e as coisas
Chegavam também os primeiros gritos da vinda do homem novo
Que vinha trazer à carne um novo sentido de prazer
E vinha expulsar o Espírito dos seres e das coisas.

Eu já tinha aparecido.

No caos, no horror, no parado, eu vi o caminho que ninguém via
O caminho que só o homem de Deus pressente na treva.
Eu quis fugir da perdição dos outros caminhos
Mas eu caí.
Eu não tinha como o homem de outrora a força da luta
Eu não matei quando devia matar
Eu cedi ao prazer e à luxúria da carne do mundo.
Eu vi que o caminho se ia afastando da minha vista
Se ia sumindo, ficando indeciso, desaparecendo.
Quis andar para a frente.
Mas o corpo cansado tombou ao beijo da última mulher que ficara.

Mas não.
Eu sei que a Verdade ainda habita minha alma
E a alma que é da Verdade é como a raiz que é da terra.
O caminho fugiu dos olhos do meu corpo
Mas não desapareceu dos olhos do meu espírito
Meu espírito sabe...

Ele sabe que longe da carne e do amor do mundo
Fica a longa vereda dos destinados do profeta.
Eu tenho esperanças, Senhor.
Na verdade o que subsiste é o forte que luta
O fraco que foge é a lama que corre do monte para o vale.
A águia dos precipícios não é do beiral das casas
Ela voa na tempestade e repousa na bonança.
Eu tenho esperanças, Senhor.
Tenho esperanças no meu espírito extraordinário
E tenho esperança na minha alma extraordinária.
O filho dos homens antigos
Cujo cadáver não era possuído da terra
Há de um dia ver o caminho de luz que existe na treva
E então, Senhor
Ele há de caminhar de braços abertos, de olhos abertos
Para o profeta que a sua alma ama mas que seu espírito ainda não possuiu.

[Vinicius de Morais]

Caminho da Costa