sábado, 5 de janeiro de 2013

Nasci para servir os outros

 
Um enorme cepo de oliveira ardia lentamente ao canto da lareira. Entretanto, recordava o seu passado. «No princípio, era uma oliveira como as outras. Além de dar azeitona, os pássaros abrigavam-se nos meus ramos. Passaram os anos e comecei a sentir dificuldades: a seiva já não atingia os ramos altos, que começaram a secar. Tornei-me numa velha oliveira que já não dava azeitona. Sequei pouco a pouco e tornei-me num velho cepo. Vieram os lenhadores arrancar-me e vim parar a esta lareira. Pegaram-me fogo e eu dou-lhes o calor de que necessitam. Á minha volta, nesta noite fria, os homens esfregam as mãos, as mulheres falam e as crianças dormitam». E o último pensamento do cepo foi este: «Nasci para servir os outros. Fiz o melhor que pude no desempenho da missão que me coube. Por isso, morro tranquilo e feliz. No punhado de cinza a eu me reduzo fica a alegria de me ter dado completamente aos outros até ao fim».

Quem caminhou?


Quem caminhou entre o violeta e o violeta
quem caminhou por entre
os vários renques de verdes diferentes
de azul e branco, as cores de Maria,
falando sobre coisas triviais
na ignorância e no saber da dor eterna
quem se moveu por entre os outros e como eles caminhou
quem pois revigorou as fontes e as nascentes tornou puras
tornou fresca a rocha seca e solidez deu às areias

de azul das esporinhas, a azul cor de Maria,
sovegna vos
eis os anos que permeiam, arrebatando

flautas e violinos, restituindo
aquela que no tempo flui entre o sono e a vigília, oculta
nas brancas dobras de luz que em torno dela se embainham.

Os novos anos se avizinham, revivendo
através de uma faiscante nuvem de lágrimas, os anos, resgatando
com um verso novo antigas rimas. Redimem
o tempo, redimem
a indecifrada visão do sonho mais sublime
enquanto ajaezados unicórnios a essa de ouro conduzem.
A irmã silenciosa em véus brancos e azuis

por entre os teixos, atrás do deus do jardim,
cuja flauta emudeceu, inclina a fronte e persigna-se
mas sem dizer palavra alguma
mas a fonte jorrou e rente ao solo o pássaro cantou

redimem o tempo, redimem o sonho
o indício da palavra inaudita, inexpressa
até que o vento, sacudindo o teixo,

acorde um coro de murmúrios
e depois disto nosso exílio

[T. S. Eliot (1888-1965)]

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Peregrinos...

“Todos temos um Caminho a percorrer.”


Pode haver muitas razões para fazer um caminho, mas a melhor definição que consigo dar é a que tenho no meu blog: “Todos temos um Caminho a percorrer. E mesmo que se vá em grupo o Caminho é sempre “nosso”, porque cada um sabe como vai e porque o faz, cada dia que passa ganhamos um motivo… Parece mágico! Todos são diferentes, pela paisagem, uns mais duros do que outros, mas todos têm o mesmo objectivo, chegar a Santiago de Compostela. Depois de tanto andar, é uma experiência que, por muitas palavras que use, nunca vou conseguir explicar. O meu marido costuma dizer: “Quando se começa, queremos chegar, quando chegamos não queremos partir”. Acho que só um peregrino é que consegue entender outro peregrino.
 
[in Alguma Dor Cura a Alma, de Carlos Ferreira]

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Para ti, a Paz


Que os montes tragam a paz ao povo, e as colinas, a justiça.
Que os montes tragam a paz ao povo,
e as colinas, a justiça.
Que o rei proteja os humildes do povo,
ajude os necessitados e esmague os opressores!

Em seus dias florescerá a justiça
e uma grande paz até ao fim dos tempos.
Dominará de um ao outro mar,
do grande rio até aos confins da terra.

[Salmo 72]

Qual será?


Fácil e difícil é o caminho!

É fácil trocar as palavras,
Difícil é interpretar os silêncios!
É fácil caminhar lado a lado,
Difícil é saber como se encontrar!
É fácil beijar o rosto,
Difícil é chegar ao coração!
É fácil apertar as mãos,
Difícil é reter o calor!
É fácil sentir o amor,
Difícil é conter sua torrente!

Como é por dentro outra pessoa?
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.

Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição
De qualquer semelhança no fundo.
[Fernando Pessoa]

A Graça de Ser


terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Que assim seja em 2013!


Cortar o tempo


Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.
…Industrializou a esperança
fazendo-a funcionar no limite da exaustão.

Doze meses dão para qualquer ser humano
se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez
com outro número e outra vontade de acreditar
que daqui pra adiante vai ser diferente para você,
desejo o sonho realizado.
O amor esperado.
…A esperança renovada.

Para você,
desejo todas as cores desta vida.
Todas as alegrias que puder sorrir.
Todas as músicas que puder emocionar.

Para você neste novo ano,
desejo que os amigos sejam mais cúmplices,
que sua família esteja mais unida,
que sua vida seja mais bem vivida.

Gostaria de lhe
desejar tantas coisas
mas nada seria suficiente…
Então, desejo apenas que você tenha muitos desejos.
Desejos grandes e que eles possam te mover a cada
minuto, rumo a sua felicidade!

[Carlos Drummond de Andrade]